Em 1996, esse esforço recebeu a denominação oficial de Programa de Manutenção de 5º Escalão de Viaturas Blindadas sobre Rodas, mais conhecido como Projeto Fênix, abrangendo a modernização de 204 viaturas blindadas de reconhecimento EE-9 e de um número semelhante de blindados de transporte de pessoal EE-11. Embora o programa tenha alcançado resultados satisfatórios, proporcionando um sensível aumento da vida útil e da disponibilidade operacional dessas viaturas, ficou evidente que se tratava apenas de uma solução transitória. Os projetos básicos dos EE-9 e EE-11 remontavam à década de 1970 e haviam sido concebidos para um ambiente estratégico completamente distinto daquele existente ao final do século XX. Dessa forma, apresentavam um crescente grau de obsolescência diante das novas ameaças e dos modernos cenários de combate, caracterizados por conflitos assimétricos, operações urbanas e pelo emprego disseminado de armamentos anticarro portáteis e artefatos explosivos improvisados (IED). Essas limitações tornaram-se evidentes durante o emprego operacional em missões de paz conduzidas pela Organização das Nações Unidas (ONU), inicialmente em Moçambique e Angola, na década de 1990, posteriormente na República Democrática do Congo e, sobretudo, durante a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH), entre 2004 e 2017. Nessas operações, desenvolvidas predominantemente em ambientes urbanos e de elevada complexidade, verificaram-se deficiências relacionadas principalmente ao reduzido nível de proteção balística e antiminas, à limitada consciência situacional proporcionada aos tripulantes e às restrições para a integração de modernos sistemas de comando, controle e comunicações. Em consonância com as diretrizes estabelecidas pela Política Nacional de Defesa (PND) e pela Estratégia Nacional de Defesa (END), o Exército Brasileiro iniciou um amplo processo de modernização abrangendo não apenas a renovação dos meios materiais, mas também a atualização doutrinária. Nesse contexto foi estruturado o Portfólio Estratégico do Exército (Port EE), responsável por reunir os diversos Programas Estratégicos do Exército (Prg EE), destinados à execução de projetos de médio e longo prazo voltados à modernização da Força Terrestre. Entre as iniciativas prioritárias destacava-se o desenvolvimento de uma nova família de viaturas blindadas sobre rodas, concebida para substituir progressivamente os veteranos EE-9 Cascavel e EE-11 Urutu. A concepção desse programa incorporou diretamente as lições operacionais obtidas durante as missões internacionais de paz, privilegiando elevados níveis de proteção balística e antiminas, maior mobilidade tática, elevada capacidade de integração eletrônica e modularidade construtiva. Assim, ao final da década de 1990, o Exército Brasileiro elaborou o documento de requisitos operacionais básicos (ROB nº 09/99), estabelecendo as especificações para uma nova família de viaturas blindadas anfíbias sobre rodas.
Previa-se uma plataforma modular de configuração 6×6, capaz de receber diferentes sistemas de armas, sensores e equipamentos eletrônicos, permitindo o desenvolvimento de diversas versões especializadas sobre um mesmo chassi. Neste contexto figuravam viaturas de transporte de pessoal, reconhecimento, posto de comando, ambulância, socorro e recuperação, apoio de fogo, porta-morteiro, defesa antiaérea e combate de infantaria, podendo ser equipadas com metralhadoras pesadas, canhões automáticos de 30 mm, morteiros e lançadores de mísseis. A padronização de componentes mecânicos e eletrônicos reduziria significativamente os custos de operação e manutenção, ao mesmo tempo em que facilitaria a evolução tecnológica ao longo de seu ciclo de vida. Além disso deveria incorporar sistemas de proteção QBRN (química, biológica, radiológica e nuclear), blindagem modular, elevada resistência antiminas, arquitetura eletrônica digital e modernos sistemas de comando e controle, características indispensáveis para sua atuação nos conflitos contemporâneos. Em 12 de abril de 2007 seria lançada a solicitação formal às empresas Agrale S/A, Avibras S/A, EDAG Ltda, Fiat - Iveco do Brasil S/A e IESA que elaborassem propostas financeiras. A seguir seria deflagrada uma licitação para o programa denominado como NFMBR (Nova Família de Blindados Médios de Rodas). Em 21 de dezembro deste mesmo ano, seria assinado em Brasília um acordo entre o Exército Brasileiro e a divisão da Fiat - Iveco S/A, para o início da construção de um protótipo, tendo em vista que a proposta apresentada representava a melhor solução do ponto vista técnico e econômico, pesando também a experiencia da empresa na produção do blindado sobre rodas Super AV 8x8. No dia 18 de dezembro de 2009, no Quartel-General do Exército, o General Fernando Sérgio Galvão, Chefe do Estado-Maior do Exército, e o Presidente da Iveco do Brasil S/A , Marco Mazzu, assinaram o contrato de produção do Projeto Viatura Blindada de Transporte de Pessoal - Médio sobre Rodas (VBTP-MSR), prevendo a fabricação de 2.044 unidades. Em 2011 o protótipo do Veículo Blindado de Transporte Médio sobre Rodas Guarani 6X6, foi apresentado na LAAD Latin American Aero & Defence, no Rio de Janeiro (RJ). Em meados do ano de 2013, a Iveco Defense Brasil S/A inauguraria na cidade mineira de Sete Lagoas, uma planta dedicada a produção anual de 60 viaturas. Apresentaria um monobloco formado por duas longarinas na base do veículo, que abriga toda a suspensão, os elementos de transmissão com sua respectiva caixa e dois diferenciais, um dianteiro e outro traseiro. Sobre este conjunto foi montado a estrutura blindada, em forma de V capaz de resistir a minas terrestres de até 6 kg de carga. Com mais de 7,0 mts de comprimento por 2,4 mts, com capacidade anfíbia possuiu tração 6X6, com possibilidade de trafegar tanto em terreno arenoso como em asfalto. Sua blindagem apesar de leve, seria capaz de proteger ele contra disparos de todos os tipos de projéteis em calibre 7,62X51 mm, inclusive perfurantes de blindagem e fragmentos de granadas.
Seria concebido para transportar um Grupo de Combate (GC) composto por 09 militares, incluindo o comandante do grupo, além dos dois integrantes da tripulação permanente da viatura motorista e atirador. Chegou-se a ser estudada uma versão destinada às unidades de Cavalaria Mecanizada, concebida para substituir progressivamente as viaturas blindadas de reconhecimento EE-9 Cascavel. Essa versão previa o emprego de uma torre armada com canhão de 105 mm, transformando-o em uma Viatura Blindada de Combate de Cavalaria (VBC Cav). Entretanto revisões dos requisitos operacionais, aliadas à necessidade de maior poder de fogo, proteção e mobilidade estratégica, levaram opção por uma solução distinta. Em 2016, o contrato original do Programa Guarani foi revisto em decorrência de restrições orçamentárias e do replanejamento da transformação da Força Terrestre. A previsão de aquisição foi reduzida para 1.580 viaturas, com entregas programadas até 2035, contemplando diversas versões especializadas. O primeiro contrato de exportação foi firmado em 2015 com o governo do Líbano, prevendo o fornecimento de 10 unidades, sendo em 2017 incorporados às Forças de Segurança Interna do Líbano (Internal Security Forces – ISF), passando a ser empregados em missões de segurança interna e garantia da ordem pública, principalmente na capital, Beirute. Em 2020 por intermédio da Elbit Systems Ltd., o Guarani foi selecionado pelo Exército das Filipinas no âmbito do programa Light Armored Vehicle Acquisition Project. O contrato previa o fornecimento de 28 viaturas blindadas configuradas segundo os requisitos operacionais filipinos, integrando modernos sistemas eletrônicos desenvolvidos pela empresa israelense, como o sistema de gerenciamento de combate TORCH-X, rádios digitais da família E-LynX, sistema de controle de tiro e novos conjuntos optrônicos para comandante e atirador. Em julho de 2021, a República de Gana tornou-se o terceiro cliente, adquirindo 19 unidades, sendo configuradas para transporte de tropas, reconhecimento, patrulhamento de fronteiras , especialmente nas regiões limítrofes com Burkina Faso. As viaturas foram equipadas com a estação de armas remotamente controlada REMAX, desenvolvida e produzida pela Ares Aeroespacial e Defesa, agregando elevada capacidade de engajamento com maior proteção para a tripulação. Países como Argentina e Malásia manifestaram interesse em diferentes, evidenciando o potencial de expansão das exportações. Em 2023, entretanto o governo brasileiro optou por não autorizar a exportação de 450 viaturas, configuradas principalmente na versão ambulância blindada, destinadas à Ucrânia. Avaliada em cerca de R$ 3,5 bilhões, a operação foi interrompida em razão da decisão do governo brasileiro de não fornecer equipamentos militares que pudessem ser empregados diretamente no conflito entre Ucrânia e Rússia. A medida encerrou, ao menos naquele momento, uma das maiores possibilidades de exportação da indústria de defesa, reduzindo significativamente o potencial internacional do programa.
Entre estas se destacaria a Viatura Blindada de Combate de Fuzileiros (VBC Fuz), concebida para proporcionar maior poder de fogo às unidades de Infantaria Mecanizada. Essa versão seria equipada com uma torre não tripulada, armada com um canhão automático de 30 mm, representando uma evolução significativa em relação à configuração básica. Em 2008, quando foram adquiridas três torres UT30BR (Unmanned Turret 30 mm Brasil) destinadas ao programa, com o primeiro sendo concluído em janeiro do ano seguinte. Posteriormente, seriam adquiridas outras torres destinadas aos lotes de avaliação e pré-série, permitindo aprofundar os estudos relacionados à integração do armamento e à operação da nova configuração. A adaptação da UT30BR constituiu um trabalho de elevada complexidade tecnológica. O sistema foi integrado pela AEL Sistemas, em associação com a Elbit Systems, incorporando à viatura uma arquitetura de combate que reunia sensores, sistemas de pontaria, comando de tiro e armamento em uma única estação remotamente controlada. Em junho de 2011, um protótipo do Guarani equipado com a UT30BR foi encaminhado ao Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro (AGR), onde a torre seria instalada e integrada definitivamente à plataforma. Concluída essa etapa, o conjunto seria submetido a uma série de ensaios conduzidos pelo Centro de Avaliações do Exército (CAEx), destinados a verificar seu desempenho e sua adequação aos requisitos estabelecidos pelo Exército Brasileiro. Um dos principais avanços proporcionados pela UT30BR estava justamente em seu conceito de torre não tripulada. Diferentemente das torres convencionais, não havia necessidade de posicionar integrantes da guarnição dentro da estrutura da torre ou expô-los diretamente ao ambiente externo para operar o armamento. O comandante e o atirador permaneciam protegidos no interior do casco do Guarani, enquanto os sistemas de observação, pontaria e disparo eram comandados remotamente por meio de uma interface semelhante a um joystick. A configuração básica do sistema compreendia o canhão automático ATK Bushmaster II Mk 44, no calibre 30×173 mm, uma metralhadora coaxial de 7,62×51 mm e um conjunto de lançadores de granadas fumígenas de 76 mm. Essa combinação proporcionava à VBC Fuz uma capacidade de engajamento significativamente superior àquela disponível na versão básica do Guarani, permitindo atuar contra diferentes categorias de alvos e oferecer apoio de fogo direto à tropa embarcada. O Bushmaster II Mk 44 empregava o princípio de funcionamento Chain Gun, de acionamento elétrico. Nesse sistema, o ciclo de funcionamento do mecanismo é realizado por uma corrente acionada por motor elétrico, não dependendo diretamente dos gases provenientes do disparo para completar o ciclo de alimentação e recarga. Essa característica contribui para a confiabilidade do armamento e facilita os procedimentos de manutenção, aspectos particularmente importantes para sua utilização em uma plataforma militar destinada a operar em condições de campo.
Apesar dos primeiros testes terem ocorrido ainda em 2011, a formalização da configuração demorou alguns anos. Em 2023, o Exército Brasileiro publicou a Portaria EME nº 958, oficializando a UT30BR como o sistema de armas selecionado para equipar o Guarani 6×6 IFV (VBC Fuz). Neste intervalo de tempo, a evolução das ameaças e dos sistemas de combate tornou necessária uma atualização. Em vez de desenvolver uma torre completamente nova, optou-se por aproveitar a experiência acumulada com a UT30BR e promover uma modernização profunda de seus sistemas eletrônicos, optrônicos e de controle. Em julho e 2023 foi firmado um contrato para a modernização estabelecendo o desenvolvimento da versão denominada UT30BR2. A proposta era aproveitar a estrutura e os conhecimentos acumulados com a versão inicial, reduzindo riscos tecnológicos e, simultaneamente, incorporando recursos mais modernos. A modernização concentra-se principalmente nos sistemas que permitem ao armamento localizar, acompanhar e engajar alvos, envolvendo o sistema de controle de tiro giroestabilizado; operação remota a partir do interior da viatura; sensores e componentes eletrônicos modernizados; dois módulos optrônicos independentes; monitor Full HD sensível ao toque; capacidade Hunter-Killer; sistema de detecção de ameaça laser; proteção da torre correspondente ao nível 2 da STANAG 4569 e mecanismo de redução da silhueta da torre para facilitar sua transportabilidade. Um dos aspectos mais interessantes é justamente a arquitetura de dois módulos optrônicos independentes, que amplia a capacidade de observação da guarnição e favorece a distribuição das tarefas entre comandante e atirador. A UT30BR2 também deve ser entendida dentro da mudança ocorrida no campo de batalha nos últimos anos. A disseminação de sistemas aéreos remotamente pilotados de pequeno porte, especialmente drones comerciais adaptados para emprego militar, acrescentou uma nova dimensão às ameaças enfrentadas pelas forças blindadas e mecanizadas. O desenvolvimento da nova torre avançaria de maneira concreta a partir de 2025. Em 12 de março daquele ano, representantes do Exército Brasileiro acompanharam, nas instalações da ARES, a integração do primeiro protótipo da UT30BR2 à plataforma Guarani 6×6. Entre 9 e 16 de outubro do mesmo ano, militares da Diretoria de Fabricação e do Arsenal de Guerra do Rio participaram, no CAEx, dos Testes de Aceitação de Campo do segundo protótipo da UT30BR2 integrada ao Guarani. A avaliação incluiu testes funcionais e disparos em campo. A atividade ocorreu ainda dentro do Contrato nº 01/2023-DF. Após sua aceitação e posterior contrato de produção em série, estas torres devem ser instaladas em nas viaturas Guarani MR 6x6 IFV (VBC Fuz), se tornado o primeiro blindado deste tipo a entrar em operação no Exército Brasileiro, sendo destinados as Brigadas de Infantaria Mecanizada (Bda Inf Mec), passando a fazer parte dos Pelotões de Apoio de Fogo, das Companhia de Comando e Apoio de cada Batalhão. Bibliografia :
- Projeto Guarani, a Retomada do Desenvolvimento de Blindados Militares no Brasil - www.redectidc.com.br
- Tecnologia e Defesa por Paulo Roberto Bastos Jr - https://tecnodefesa.com.br/
- LAAD 2015: Guarani com blindagem passiva UFF por Roberto Caifa - https://tecnodefesa.com.br/
- VBTP-MR Guarani – Torre UT-30BR - www.defesanet.com.br/terrestre/vbtp-mr-guarani-torre-ut-30br/#google_vignette
- Entregue as duas primeiras UT30BR2 - https://tecnodefesa.com.br/entregue-as-duas-primeiras-ut30br2/
- VBTP-MR Guarani Wikipedia - https://pt.wikipedia.org/wiki/VBTP-MR_Guarani
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