P-39D Bell Airacobra

História e Desenvolvimento.
A trajetória de Lawrence Dale Bell, amplamente conhecido como “Larry” Bell, está profundamente associada ao processo de consolidação da indústria aeronáutica norte-americana . Nascido em 1894  ingressou ainda jovem no setor aeronáutico, em um período em que a aviação passava de atividade experimental para um campo industrial emergente. Em 1912 iniciou sua carreira na Glenn L. Martin Company, onde rapidamente se destacou por suas habilidades administrativas e comerciais, ascendendo ao cargo de vice-presidente e gerente geral. Após divergências profissionais, deixou a companhia em 1924. Alguns anos depois,  ingressou na Consolidated Aircraft, estabelecida na cidade de Buffalo, no estado de Nova York, assumindo a função de vice-presidente comercial. Sua atuação contribuiu significativamente para a expansão da empresa naquele período. Contudo, quando a Consolidated decidiu transferir suas instalações industriais para San Diego, na Califórnia, em 1935, Bell optou por permanecer em Buffalo. A decisão abriria caminho para a criação de sua própria companhia, fundando a Bell Aircraft Corporation, estabelecendo suas instalações em uma antiga fábrica localizada na região de North Delaware.  O  marco significativo no campo militar ocorreu em 1937, quando a companhia firmou um contrato com o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) para o desenvolvimento do Bell YFM-1 Airacuda. Concebido como um caça pesado bimotor de grande poder de fogo, o projeto refletia as concepções estratégicas predominantes na década de 1930, que buscavam aeronaves capazes de interceptar e destruir formações de bombardeiros inimigos antes que alcançassem seus objetivos. O Airacuda foi projetado como um verdadeiro “bombardeiro-destruidor”, incorporando uma série de soluções tecnológicas avançadas para a época. Entre essas inovações destacavam-se um sistema de pontaria estabilizado por giroscópios e um sistema de controle de fogo automático baseado em tecnologia eletrônica termiônica, algo extremamente sofisticado para os padrões da engenharia aeronáutica daquele período. Apresentava uma configuração pouco convencional, com motores posicionados em arranjo de hélice traseira e torres de armamento flexíveis instaladas nas naceles dos motores, características que buscavam maximizar o poder de fogo frontal. Apesar do caráter inovador, revelou-se excessivamente complexo para as condições operacionais e logísticas da época. Problemas relacionados ao desempenho em voo, como estabilidade e dificuldades técnicas associadas à manutenção dos sistemas embarcados, limitaram sua viabilidade operacional, resultando em 13 aeronaves foram produzidas. Introduzidas em serviço em 1938, todas foram retiradas de operação no início de 1942. Ainda assim, o programa desempenhou papel importante na consolidação da Bell como uma empresa disposta a explorar conceitos de engenharia inovadores e não convencionais.

Em fevereiro de 1938,  o  Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), publicou a chamada Proposta Circular X-609, uma especificação técnica ambiciosa destinada ao desenvolvimento de um novo caça interceptador de alta altitude. O programa foi conduzido por dois oficiais visionários,  tenente Benjamin S. Kelsey, responsável por projetos aeronáuticos dentro do corpo aéreo, e o capitão Gordon P. Saville, instrutor da Escola Tática do Corpo Aéreo do Exército. A proposta refletia o crescente entendimento de que a próxima geração de aeronaves de combate deveria apresentar desempenho significativamente superior ao dos caças existentes. A especificação estabelecia requisitos técnicos extremamente exigentes, que desafiavam os limites da engenharia aeronáutica da época. Entre os parâmetros definidos pelo projeto estavam: Motorização: utilização de um motor Allison V-1710, V-12 refrigerado a líquido, associado a um turbocompressor General Electric, destinado a preservar o desempenho da aeronave em grandes altitudes. Configuração estrutural: adoção de um trem de pouso triciclo  solução ainda pouco comum naquele período  projetada para melhorar a estabilidade durante as fases de decolagem e pouso, além de facilitar a operação em pistas menos preparadas. Armamento: capacidade de transportar até 1.000 libras de carga útil, incluindo a instalação de um canhão de 20 mm no eixo da hélice, considerado de grande calibre para caças da época. Desempenho: velocidade máxima estimada em aproximadamente 580 km/h, teto operacional de cerca de 6.100 metros e capacidade de atingir essa altitude em apenas 06 minutos  parâmetros que representavam um avanço considerável para um caça monomotor do final da década de 1930. Essas especificações representavam um verdadeiro salto tecnológico, exigindo a combinação de potência, agilidade e precisão em níveis até então inéditos. A concorrência despertou grande interesse entre as principais fabricantes, que apresentaram projetos variados em resposta às exigências do programa. Entre as propostas apresentadas, destacou-se o projeto do XP-39, que incorporava uma solução técnica singular para um caça monomotor: a instalação do motor Allison V-1710 em posição central, atrás da cabine do piloto. Nesse arranjo, o motor transmitia potência à hélice por meio de um eixo de transmissão que passava sob o piso da cabine, solução que já havia sido parcialmente explorada pela empresa no desenvolvimento do YFM-1 Airacuda. Essa configuração oferecia vantagens significativas. Ao deslocar o motor para a seção central da fuselagem, a parte frontal da aeronave ficava livre para a instalação de armamento pesado. No caso do XP-39, foi adotado o canhão Oldsmobile T9 37 mm, capaz de disparar através do cubo da hélice com elevada precisão e estabilidade. Esse armamento era complementado por metralhadoras de 12,7 mm e 7,62 mm, conferindo  uma impressionante capacidade de fogo.
Além da potência ofensiva, a disposição central do motor proporcionava um perfil frontal aerodinamicamente mais limpo, reduzindo o arrasto e contribuindo para o aumento da velocidade máxima. Incorporava o trem de pouso triciclo, que proporcionava maior estabilidade durante as operações em solo. Outro elemento importante do projeto era a integração do turbocompressor, com essa  combinação de características posicionando o XP-39 como uma resposta direta às exigências da Circular X-609. Em 6 de abril de 1938, o protótipo  alçou voo pela primeira vez em Wright Field, Ohio. O desempenho foi notável, atingindo  uma velocidade máxima de 630 km/h a 6.100 metros (20.000 pés), superando as especificações iniciais, alcançando essa altitude em apenas cinco minutos, um feito impressionante para a época.  Esses resultados destacaram seu potencial  como um caça ágil e poderoso, capaz de competir com os melhores designs internacionais. No entanto, o projeto enfrentou desafios, pois seu  turbocompressor, gerava arrasto aerodinâmico significativo, comprometendo a eficiência em certas condições. A solução ideal  integrar o conjunto internamente para reduzir o arrasto  era inviável devido às limitações de espaço na fuselagem. Esta temática geraria inúmeras discordâncias  entre os engenheiros e os militares, se optando por uma abordagem cautelosa, encomendando, em 1938, apenas 12 aeronaves em uma versão experimental, designada XP-39A, desprovida do turbocompressor. Entregues no inicio do ano seguinte, foram submetidas a um rigoroso programa de ensaios de voo em Wright Field, Ohio, sob a supervisão de pilotos e engenheiros do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) . Esses testes, conduzidos ao longo de meses, expuseram tanto as suas qualidades,  como sua manobrabilidade e potência de fogo  quanto suas limitações, especialmente em altitudes acima de 4.000 metros. Os resultados dos ensaios de voo revelaram a necessidade de ajustes significativos no projeto. A ausência do turbocompressor, embora reduzisse o arrasto, comprometeu o desempenho em altitudes elevadas, enquanto questões de estabilidade e eficiência exigiam refinamentos adicionais. Com base nessas avaliações, a Bell desenvolveu o XP-39B, uma versão revisada que incorporava melhorias aerodinâmicas e ajustes no sistema de propulsão. Apesar dos avanços, o XP-39B ainda não atendia plenamente às expectativas para um interceptador de alta altitude, evidenciando a dificuldade de equilibrar inovação técnica com as demandas operacionais. Paralelamente, a Bell enfrentava outro desafio: adaptar o projeto às realidades da produção em larga escala. A complexidade do XP-39B exigia um ferramental específico, o que elevava custos e dificultava a manutenção em campo. Com o avanço do projeto e diante das exigências impostas ao fabricante que passou a concentrar seus esforços em tornar o novo caça mais viável do ponto de vista industrial e operacional. 

Para isso, os engenheiros buscaram simplificar diversos aspectos do projeto original, priorizando a utilização de componentes compatíveis com as linhas de produção existentes,  facilitando a manutenção da aeronave em condições de campanha. Esse processo de racionalização industrial resultou no desenvolvimento do P-39C Airacobra, a primeira variante destinada à produção em série. Equipado com o motor Allison V-1710 e um turbocompressor de velocidade única,  representava um compromisso entre desempenho teórico e viabilidade prática de produção. Entretanto, essa configuração revelou limitações significativas, sobretudo no que se referia à capacidade da aeronave de atuar como interceptador em médias e grandes altitudes  um dos requisitos centrais originalmente estabelecidos pela Proposta Circular X-609. A ausência de um sistema de superalimentação mais eficiente comprometia o desempenho em altitude, frustrando parcialmente as expectativas iniciais. Apesar dessas limitações técnicas, o contexto internacional em rápida deterioração exerceu forte influência nas decisões estratégicas. À medida que as tensões globais aumentavam na Europa e na Ásia, tornava-se imperativo acelerar o processo de modernização da aviação de combate. Nesse cenário, em 10 de agosto de 1939 foi formalizada uma encomenda inicial de 80 aeronaves  P-39C. Durante o processo de avaliação, contudo, relatórios elaborados por setores de inteligência norte-americanos passaram a apontar preocupações adicionais quanto à capacidade de sobrevivência da aeronave em combate real. Observou-se que o P-39C não possuía blindagem adequada para proteção do piloto, nem tanques de combustível auto-vedantes  tecnologias que já começavam a ser adotadas em caças, como o Messerschmitt Bf 109 A ausência desses recursos aumentava significativamente o risco de perdas em confrontos contra adversários bem equipados. Essas avaliações críticas, somadas às limitações de desempenho em altitude, levaram os militares a rever seus planos de produção. Como resultado, a fabricação do P-39C foi drasticamente reduzida, limitando-se a apenas 20 unidades. As críticas ao modelo inicial estimularam a promoção uma série de melhorias estruturais e operacionais no projeto. O resultado desse processo foi o desenvolvimento do  P-39D, a primeira versão considerada plenamente adequada para emprego em combate. Essa variante incorporava blindagem adicional para proteção do piloto, tanques de combustível auto-vedantes e um armamento significativamente reforçado. Além do canhão de 37 mm instalado no eixo da hélice,  passou a dispor de metralhadoras adicionais de 12,7 mm e 7,62 mm, aumentando consideravelmente sua capacidade ofensiva. Essas melhorias elevaram a robustez estrutural da aeronave e ampliaram sua capacidade de sobrevivência em combate, tornando o modelo mais adequado às exigências do campo de batalha. Dessa forma, das 80 aeronaves inicialmente encomendadas, as 60  restantes foram produzidas já na configuração  P-39D.  
Nesse mesmo período, a Força Aérea Real (RAF) enfrentava a necessidade urgente de ampliar sua frota, resultando em setembro de 1940, no primeiro contrato de exportação, designado internamente pela empresa como Model 14, com o acordo prevendo a entrega de até 765 aeronaves.  Apresentavam diversas modificações, dentre as quais se destacava a substituição do armamento principal pelo canhão Hispano-Suiza HS.404 de 20 mm, além da instalação de seis metralhadoras calibre .30. Curiosamente, não foram equipadas com o sistema de turbocompressor originalmente previsto nas especificações. Em serviço clarificou-se que a ausência deste sistema proporcionaria um desempenho muito inferior as primeiras versões dos caças  Hurricane MK1 e Spitfire MK1, representando graves limitações em termos de taxas inadequadas de ascensão e desempenho em alta altitude para as condições da Europa Ocidental. Desta maneira 200 aeronaves seriam redirecionadas para a União Soviética, com as poucas células remanescentes se mantendo em uso na Força Aérea Real (RAF),  até serem substituídas no início de 1942 por novos caças Hurricane MK1.  Com a entrada dos Estados Unidos no conflito, foi decidido absorver outras 200 aeronaves que seriam destinadas a exportação, sendo estas redirecionadas para a 5º Força Aérea, baseada na Austrália, passando a receber a designação P-400. Embora o desempenho da aeronave tenha sido alvo de críticas especialmente no que se referia à sua limitada capacidade de combate em altas altitudes, revelou-se bastante eficaz quando empregado em determinadas condições operacionais. Um dos exemplos mais notáveis ocorreu na União Soviética, cujos pilotos obtiveram resultados expressivos com o modelo.  No âmbito do programa de ajuda militar, os soviéticos receberam um total de 4.719 aeronaves da família Airacobra. Seu batismo de fogo em serviço norte-americano ocorreu no início de 1942, quando  enfrentaram aeronaves japonesas nos primeiros combates no teatro de operações do  Pacífico, sendo frequentemente superados pelo ágil  A6M Zero.  Contudo, à medida que a campanha avançava, muitos pilotos passaram a desenvolver táticas específicas capazes de explorar as qualidades do P-39, e ao final de 1942, unidades de caça da 5º Força Aérea reivindicavam a destruição de aproximadamente 80 aeronaves japonesa. Entretanto, essas vitórias foram obtidas a um custo significativo, já que um número semelhante de P-39 também foi perdido em combate  A partir de meados de 1943, a introdução de novos caças mais avançados nas unidades de primeira linha como o P-38 Lightning e o P-51 Mustang  gradualmente relegou os P-39 a missões de treinamento de novos pilotos, a  reserva tática ou transferência para  aliados. No total, até o início de 1944, foram produzidas 9.588 aeronaves pertencentes à família e seus desenvolvimentos diretos, incluindo o modelo P-63 Kingcobra.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a considerar com crescente preocupação a possibilidade de uma invasão do continente americano pelas potências do Eixo — Alemanha, Itália e Japão. A capitulação da França em junho de 1940 intensificou esses temores, especialmente diante da possibilidade de que a Alemanha nazista estabelecesse bases operacionais em territórios coloniais franceses, como as Ilhas Canárias e Dacar. Nesse cenário, o Brasil emergiu como um ponto estratégico vulnerável devido à sua proximidade geográfica com o continente africano, que, após a campanha alemã no Norte da África iniciada em 1940, figurava nos planos expansionistas do Terceiro Reich. Além disso, as conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul, incluindo a ocupação da Indochina em 1940 e das Filipinas em 1942, transformaram o país no principal fornecedor de látex para os Aliados, essencial para a produção de borracha, utilizada em pneus, vedações e outros componentes críticos para a indústria bélica. A costa nordeste brasileira, particularmente nas cidades de Recife e Natal, adquiriu relevância estratégica por ser o ponto mais próximo entre os continentes americano e africano, facilitando o translado aéreo de tropas, veículos, suprimentos e aeronaves para os teatros de operações na Europa e no Norte da África, como a Operação Tocha de novembro de 1942.  Diante dessas ameaças, o governo brasileiro, liderado pelo presidente Getúlio Vargas, intensificou a aproximação política e econômica com os Estados Unidos, resultando em uma série de acordos estratégicos. Um dos mais significativos foi a adesão do Brasil ao programa de ajuda militar Lend-Lease Act (Lei de Arrendamento e Empréstimo), promulgado pelo Congresso americano em março de 1941. Esse programa destinou ao Brasil uma linha de crédito inicial de US$ 100 milhões, voltada para a aquisição de armamentos modernos, incluindo aeronaves, veículos blindados, carros de combate e navios. O objetivo  era modernizar as Forças Armadas, que na época, enfrentavam obsolescência em equipamentos e doutrina operacional. Estes recursos foram essenciais para capacitar o enfrentamento as ameaças representadas pelos submarinos alemães e italianos, que intensificaram ataques contra a navegação civil e militar ao longo do extenso litoral brasileiro. Entre 1942 e 1943, cerca de 20 navios mercantes brasileiros foram afundados, impactando o transporte de matérias-primas cruciais para os Estados Unidos. A modernização naval e aérea, impulsionada pelo programa, permitiu ao Brasil desempenhar um papel ativo na defesa do Atlântico Sul e na proteção das rotas marítimas aliadas. Neste período a recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB), enfrentava desafios significativos devido à obsolescência de sua frota, carecendo de aviões de treinamento básico e avançado, essenciais para formar pilotos militares em quantidade e qualidade suficientes para atender às demandas. 

A necessidade, levou o Ministério da Aeronáutica (MAer) a implementar um programa gradual de reequipamento. Inicialmente, foram priorizadas aeronaves de treinamento para formação de pilotos, seguidas por aviões de patrulha para vigilância do litoral e, posteriormente, por aeronaves de caça, bombardeio e transporte, ampliando progressivamente as capacidades operacionais. A partir de 1942, a modernização ganhou novo impulso com a chegada de centenas de aeronaves, como os caças P-40 Warhawk, os bombardeiros A-20 Havoc e os treinadores T-6 Texan. Esses modelos representaram um significativo avanço tecnológico, mas sua incorporação também exigiu a formação de pessoal e a criação de uma estrutura adequada para sua operação, manutenção e emprego eficiente. A incorporação dessas aeronaves mais modernas trouxe novos desafios, devido à maior complexidade de seus sistemas de propulsão, hidráulica, eletrônica, comunicações e armamentos. Tornou-se, assim, indispensável formar mecânicos, técnicos, especialistas, oficiais e pilotos capacitados para operá-las e mantê-las em condições de voo. Em plena guerra, garantir a disponibilidade operacional das aeronaves era tão importante quanto sua própria aquisição. Essa realidade evidenciou uma deficiência estrutural que precisava ser rapidamente superada: a carência de instituições especializadas na formação de pessoal técnico aeronáutico. Assim foi percebido que  a expansão da frota deveria ser acompanhada pela criação de uma estrutura permanente de ensino, capaz de absorver e transmitir os conhecimentos técnicos associados à nova geração de aeronaves. Dessa forma, a formação profissional passou a ser encarada como parte essencial do próprio processo de modernização. Nesse contexto, a aproximação militar e tecnológica,  foi além do fornecimento de aeronaves e equipamentos, evolvendo também a  transferência de conhecimentos, métodos de instrução e padrões técnicos, contribuindo para modernizar a formação e a estrutura aeronáutica brasileira. Um dos resultados dessa cooperação ocorreu em 29 de setembro de 1943, quando foi firmado um acordo com o governo dos Estados Unidos, representado por John Paul Riddle, fundador da Embry-Riddle School of Aviation. O entendimento estabeleceu as bases para a criação, de uma escola voltada à formação de técnicos especializados na operação e manutenção de aeronaves e seus sistemas. A iniciativa foi  aprovada por meio do Decreto-Lei nº 5.983, de 10 de dezembro , formalizando a criação da Escola Técnica de Aviação (ETAv). A escola seria instalada em uma ampla área na Rua Visconde de Parnaíba, nº 1.316, no bairro da Mooca, em São Paulo. A escolha da cidade refletia sua crescente importância como principal polo industrial do país, dotado de infraestrutura, mão de obra especializada e forte atividade fabril, condições favoráveis à formação de técnicos.
Nesse período, a aviação despertava grande fascínio entre os jovens. Os combates aéreos e as vitórias da aviação aliada alimentavam o entusiasmo popular e projetavam o avião como símbolo de modernidade, progresso tecnológico e novas oportunidades profissionais. Esse ambiente de entusiasmo refletiu-se diretamente na elevada procura pelos cursos da Escola Técnica de Aviação (ETAv), em seu primeiro ano de funcionamento, em 1944, a escola registrou aproximadamente 4.000 matrículas, número expressivo para a época e que demonstra tanto o prestígio alcançado pela aviação quanto a percepção, entre os jovens, de que o setor aeronáutico oferecia um promissor campo profissional. A escola oferecia formação em diversas especialidades técnicas, acompanhando a crescente complexidade das aeronaves militares. Entre as principais áreas estavam a manutenção de sistemas hidráulicos e trens de pouso, a inspeção e regulagem de hélices de passo variável e a calibração e manutenção dos instrumentos de bordo, essenciais à segurança das operações aéreas. A formação incluía ainda motores aeronáuticos, com ênfase em diagnóstico, manutenção e reparo de motores a pistão, além de técnicas de inspeção estrutural e conservação das aeronaves. No campo operacional, os alunos recebiam instruções no simulador Link Trainer e conhecimentos de meteorologia aeronáutica, fundamentais para a formação de pilotos e o planejamento seguro dos voos. A formação abrangia também áreas de segurança e apoio às operações aéreas, incluindo manutenção de paraquedas, sistemas de rádio e circuitos elétricos das aeronaves, capacitando os alunos para inspeção, reparo e identificação de falhas nos equipamentos embarcados. A formação era complementada por cursos de trabalho em chapas metálicas, fabricação e recuperação de componentes, além do uso de máquinas e ferramentas de oficina. Também incluía a manutenção de viaturas empregadas no apoio aos aeródromos, abrangendo assim diferentes áreas técnicas essenciais ao funcionamento de uma moderna estrutura aeronáutica. Valorizava-se a formação prática, entendendo que o domínio da atividade aeronáutica exigia contato direto com ferramentas, motores, sistemas e estruturas reais. Assim, os alunos transformavam os conhecimentos teóricos em experiência profissional, aprendendo, como se dizia na época, a “pôr a mão na graxa”. Contava-se com uma estrutura composta por aeronaves, motores, equipamentos e oficinas, proporcionando aos alunos contato direto com materiais reais. Dessa forma, a escola buscava reproduzir o ambiente profissional e preparar seus técnicos para a crescente complexidade tecnológica. Essas aeronaves funcionariam como laboratórios técnicos, permitindo aos estudantes realizar desmontagens, inspeções estruturais, manutenção de motores e testes de sistemas em condições próximas à realidade operacional. A obtenção dessas aeronaves foi possível graças a um aditivo ao programa de assistência militar norte-americano. 

Dentro deste processo a  Escola Técnica de Aviação (ETAv) recebeu aeronaves oriundas da Força Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAF) classificadas como “Restricted – R”, já próximas do fim de sua vida operacional. Embora inadequadas para o combate, essas células foram aproveitadas como plataformas de instrução, funcionando como verdadeiros laboratórios para a formação prática dos futuros especialistas. A utilização dessas aeronaves proporcionava aos alunos contato direto com sistemas e equipamentos reais, permitindo a realização de desmontagens, inspeções, reparos e identificação de falhas. Esse método aproximava o ensino da realidade operacional e contribuía para formar uma nova geração de mecânicos, técnicos e especialistas aeronáuticos. Entre os exemplares estavam disponíveis estavam 01 Lockheed B-34 Lexington  empregado na instrução de sistemas de navegação e manutenção de motores radiais; 02 North American B-25 Mitchell  destinados ao  treinamento em sistemas hidráulicos, motores e equipamentos de armamento; 02 Curtiss P-40E Kittyhawk , particularmente úteis para o estudo dos motores Allison e das estruturas das asas;01 Douglas A-20C Havoc utilizado na instrução de sistemas elétricos e equipamentos de armamento; 01 Douglas B-18 Bolo  empregado no estudo de estruturas de fuselagem e sistemas aeronáuticos; 01 Vultee A-35B Vengeance adequado ao treinamento em estruturas metálicas e sistemas de controle; 01 Republic P-47B Thunderbolt dedicado a técnicas de manutenção de motores. Essas aeronaves foram concentradas em uma área externa situada nas proximidades do Hipódromo da Mooca, a curta distância da sede da escola, instalada na Rua Visconde de Parnaíba, nº 1.316, no bairro da Mooca, em São Paulo.  Um episódio particularmente interessante ocorreu em 1943, quando foi recebida uma célula do Bell P-39D Airacobra. Sua presença fugia, de certa maneira, ao padrão adotado até então, uma vez que esse modelo não havia sido empregado operacionalmente no Brasil naquele período.  Assim com base em pesquisas de registros de aeronaves do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) aferimos que a esta aeronave portava a matrícula “USAAC 41-6914" e ostentava o padrão de pintura da Real Força Aérea (Royal Air Force), devendo assim pertencer originalmente aos contratos de aeronaves destinadas a Grã-bretanha, firmados no início da década de 1940. Não se sabe se esta célula foi realmente entregue aos ingleses de posteriormente requisitada de volta, ou se foi desviada  diretamente da linha de produção para atender as demandas emergenciais norte-americanas. Os registros apontam que esta célula estava baseada em um grupo de caça de reserva, baseado em Porto Rico, e em algum momento veio a sofrer um acidente operacional de pequena monta, sendo reparada e recolocada em condições de voo com restrições operacionais. 
Em 1943, a aeronave foi cedida para fins de treinamento técnico com a classificação “War-Weary” (Cansada de Guerra), utilizada para identificar aeronaves que, embora ainda apresentassem condições de voo, já eram consideradas mais adequadas a funções secundárias. O traslado até o Brasil foi realizado em voo por um oficial norte-americano. Após sua chegada ao país,  foi incorporado ao acervo da Escola Técnica de Aviação (ETAv). Não existem registros confiáveis que indiquem que a aeronave tenha efetivamente voado em território brasileiro. Fotografias do período mostram a célula instalada sobre cavaletes nas dependências da escola, onde era utilizada como instrumento de instrução prática. Nesse ambiente, os alunos podiam desmontar e remontar componentes, estudar sistemas e familiarizar-se diretamente com os princípios de funcionamento de uma aeronave de combate moderna. Sua presença possuía especial importância didática. O P-39D apresentava soluções técnicas pouco comuns para a época e permitia aos alunos conhecer conceitos diferentes daqueles encontrados em grande parte das aeronaves então utilizadas no Brasil. Equipado com o motor Allison V-1710-85, o caça possuía uma configuração particularmente interessante: o motor era instalado na região central da fuselagem e transmitia sua potência à hélice por meio de um longo eixo de transmissão. Essa disposição construtiva oferecia uma oportunidade excepcional para o estudo de sistemas de propulsão, transmissão e instalações elétricas. Embora sua utilização como aeronave de instrução seja amplamente associada à formação técnica, os registros disponíveis não permitem estabelecer com segurança a extensão de seu emprego na grade curricular ou mesmo quais disciplinas utilizaram efetivamente a célula. Assim, embora sua presença no acervo seja documentada, os detalhes de sua utilização didática permanecem parcialmente desconhecidos. A trajetória final do P-39D tornou-se ainda mais incerta após a reorganização do ensino técnico da Força Aérea. Em 1953, com a fusão dos recursos materiais e do pessoal da ETAv com os da Escola de Especialistas da Aeronáutica (EEAer), o acervo da instituição foi redistribuído. Algumas fontes indicam que a célula do Airacobra teria sido transportada para Guaratinguetá, nova sede da escola. Outras, entretanto, sustentam que teria sido alienada e posteriormente desmontada ou sucateada ainda em São Paulo, antes da transferência. A ausência de documentação impede determinar qual dessas versões corresponde aos acontecimentos. O que permaneceu preservado foi o seu motor Allison V-1710-85, atualmente integrante do acervo do Museu Aeroespacial (MUSAL). Dessa forma, embora o destino da célula continue cercado por lacunas documentais, parte daquele singular P-39D sobrevive como testemunho de uma época em que aeronaves retiradas do serviço operacional desempenharam um papel importante na formação dos primeiros especialistas.

Em Escala.
Para representarmos o  Bell P-39D Airacobra " USAAC 41-6914" (a aeronave não recebeu matricula nacional) fizemos uso do antigo, porém razoável kit da Monogram na escala 1/48, que apresenta em seu detalhamento a possibilidade de exibirmos o motor e armamentos. Como dito anteriormente a falta de referências e a existência de apenas duas fotos , nos concedem a licença poética para configurarmos este modelo, mantendo as matriculas originais e os cocares brasileiros.  Empregamos decais confeccionados FCM Decais, oriundos de diversos sets para completar o trabalho.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura original tático aplicado a uma grande parte das aeronaves destinadas  a Real Força Aérea (Royal Air Force) durante as fases iniciais da Segunda Guerra Mundial, com qual esta célula foi recebida.  Segundo relatos este esquema seria mantido até o sucateamento da aeronave em 1955.
Bibliografia :
- Bell P-39 Airacobra  - Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/Bell_P-39_Airacobra
- Escolta Técnica de Aviação - Portal da Moóca
- José de Alvarenga - Arquivos
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 - 2015  Jackson Flores Jr