UC-78/B Cessna Bobcat T-50

História e Desenvolvimento.
O surgimento daquilo que viria a se consolidar como a Cessna Aircraft Company remonta a junho de 1911, quando Clyde Vernon Cessna, então fazendeiro e entusiasta da aviação residente em Rago, no estado do Kansas, construiu de forma artesanal sua própria aeronave. Inserido em um período ainda marcado pelo caráter experimental da aviação, Cessna destacou-se ao realizar voos pioneiros de maior alcance, incluindo travessias sobre o rio Mississippi e as Montanhas Rochosas, feitos que evidenciaram tanto sua habilidade técnica quanto sua notável determinação. Impulsionado por esses êxitos iniciais, decidiu estruturar uma atividade voltada à produção aeronáutica, estabelecendo uma pequena oficina na cidade de Enid, em Oklahoma. A escolha do local revelou-se estratégica: a presença de extensas áreas planas e salinas oferecia condições ideais para a realização de ensaios de voo, fundamentais em uma época de constantes experimentações. Seus primeiros projetos seguiam a configuração predominante do período, com aeronaves biplanas construídas em madeira e revestidas em tecido, refletindo os padrões tecnológicos então disponíveis. Na tentativa de expandir seu empreendimento, Cessna buscou financiamento junto a instituições bancárias regionais, mas não obteve êxito. Diante dessas limitações, transferiu-se para Wichita, no Kansas, onde se associou a Walter H. Beech e Lloyd Stearman. Dessa parceria resultou, em 1924, a criação da Travel Air Manufacturing Company, responsável por aeronaves que alcançaram considerável aceitação no mercado, como os modelos Travel Air 2000, 5000 e 500. Entretanto, divergências internas levaram ao desligamento de Cessna da companhia. Mantendo seu espírito empreendedor, fundou, em 7 de setembro de 1927, ao lado de Victor H. Roos, a Cessna-Roos Aircraft Company. A sociedade, contudo, mostrou-se efêmera: em 22 de dezembro do mesmo ano, com a saída de Roos, a empresa foi reorganizada e passou a adotar a denominação definitiva de Cessna Aircraft Corporation. Determinada a consolidar sua posição no mercado aeronáutico, a nova companhia deu início ao desenvolvimento de um projeto ambicioso, designado Cessna DC-6. O protótipo realizou seu primeiro voo em 14 de maio de 1929, e sua certificação de aeronavegabilidade foi obtida em 29 de outubro daquele mesmo ano  data que coincidiria com o colapso da Bolsa de Valores de Nova York, episódio que marcaria o início da Grande Depressão. Essa crise desencadeou um dos períodos mais severos da economia norte-americana e mundial, afetando profundamente a indústria aeronáutica. Nesse cenário adverso, a linha de aeronaves da família “CR” revelou-se fundamental para a sobrevivência da empresa, mesmo diante de uma drástica retração na demanda por aviões. Ainda assim, as dificuldades impostas pela conjuntura econômica levaram Clyde Cessna a afastar-se da direção da companhia. Todavia, em junho de 1933, um acontecimento inesperado contribuiu para alterar o destino da empresa. Um piloto profissional, utilizando um Cessna CR-3, venceu a American Air Race, realizada em Chicago, estabelecendo um novo recorde mundial de velocidade em sua categoria. Esse feito não apenas projetou novamente o nome do fabricante no cenário aeronáutico, como também reforçou a credibilidade técnica de seus projetos, abrindo caminho para sua posterior recuperação e consolidação no mercado.

No final da década de 1930, os sobrinhos de Clyde Vernon Cessna, Dwane L. Wallace e Dwight Wallace, identificaram uma oportunidade decisiva para preservar e expandir o legado empresarial de seu tio. Dotados de visão estratégica e confiantes no potencial de crescimento da Cessna Aircraft Company, os irmãos optaram por adquirir o controle acionário da companhia em um momento particularmente sensível de sua trajetória. Tal iniciativa inaugurou um novo ciclo de transformação, responsável não apenas por revitalizar o negócio familiar, mas também por reposicionar a empresa como um dos atores relevantes no competitivo setor aeronáutico norte-americano. Esse movimento ocorreu em um contexto de lenta recuperação econômica dos Estados Unidos, após os profundos impactos da Grande Depressão. Atenta às mudanças conjunturais e às novas demandas do mercado, a direção da empresa promoveu uma criteriosa análise das tendências emergentes no setor de aviação. Os estudos indicaram um crescimento consistente do interesse por aeronaves leves, capazes de atender tanto ao segmento civil quanto às necessidades militares, com capacidade para transportar entre quatro e seis ocupantes. No campo militar, tais aeronaves mostravam-se particularmente adequadas para missões de ligação, transporte de cargas leves e treinamento básico de tripulações multimotoras. No âmbito civil, por sua vez, observava-se uma crescente demanda por aviões que combinassem acessibilidade, confiabilidade e versatilidade operacional  fatores que abriam espaço para soluções inovadoras. Com base nessas diretrizes, a empresa deu início, ao final de 1937, ao desenvolvimento de um projeto ambicioso, que resultaria no Cessna T-50. Concebido como um monoplano de asa cantilever, o modelo T-50 incorporava soluções técnicas avançadas para sua época, incluindo trem de pouso retrátil e propulsão por dois motores radiais Jacobs L-4MB, com 225 cavalos de potência cada, acoplados a hélices metálicas de passo fixo Curtiss Reed. Do ponto de vista construtivo, o projeto destacava-se pelo uso extensivo de madeira laminada, com asas reforçadas por estruturas em compensado, solução que conciliava leveza, resistência estrutural e economia de custos no processo de produção. Ademais, a aeronave incorporava recursos tecnológicos modernos, como sistema de ignição desenvolvido pela Delco Automotive Company e flaps acionados eletricamente, atributos que a posicionavam de forma competitiva no mercado. Essas características conferiam ao Cessna T-50 uma combinação equilibrada de eficiência, robustez e modernidade, com custos de aquisição e operação significativamente inferiores aos de seu principal concorrente, o Beechcraft Model 18, que à época dominava o segmento civil nos Estados Unidos. O primeiro protótipo do T-50 realizou seu voo inaugural em 26 de março de 1939, marco significativo na trajetória da empresa. A partir de então, a aeronave foi submetida a um rigoroso programa de ensaios em voo, destinado a validar seu desempenho, segurança e conformidade com os padrões aeronáuticos vigentes, consolidando as bases para sua futura inserção bem-sucedida no mercado.
Após a conclusão de um extenso programa de ensaios, a certificação de aeronavegabilidade registrada sob o código TC 722  foi concedida em 24 de março de 1940 pela Administração de Aviação Civil dos Estados Unidos (CAA, precursora da atual FAA). Esse marco representou um passo decisivo para a consolidação do Cessna T-50 no mercado, viabilizando o início de sua produção em série. Paralelamente, a empresa implementou uma estratégia de marketing e vendas particularmente eficaz, enfatizando atributos como acessibilidade, confiabilidade e versatilidade operacional. Essa abordagem mostrou-se bem-sucedida ao atrair não apenas operadores comerciais e proprietários privados, mas também potenciais clientes militares. Como resultado, os primeiros contratos de produção foram rapidamente firmados, seguidos pela introdução da aeronave em companhias regionais de transporte aéreo. O desempenho em serviço confirmou, e em muitos aspectos superou as expectativas iniciais, contribuindo para ampliar o interesse de operadores de maior porte. A excelente relação custo-benefício do modelo tornou-se um diferencial competitivo relevante, traduzindo-se em novos pedidos e na ampliação da escala produtiva. Com o objetivo de sustentar essa trajetória de crescimento e ampliar sua participação em um mercado então dominado por aeronaves como o Beechcraft Model 18, a empresa introduziu, no início de 1940, uma evolução do projeto original. Essa nova versão incorporava uma estrutura predominantemente metálica, ainda que mantendo alguns componentes em madeira, além de adotar hélices Hamilton Standard 2B-20-213 de velocidade constante, acionadas hidraulicamente, o que representava um avanço significativo em termos de desempenho e eficiência operacional. Entretanto, esse período de expansão comercial coincidiu com o agravamento do cenário internacional. A intensificação do conflito na Europa, no contexto da Segunda Guerra Mundial, bem como as crescentes tensões associadas ao expansionismo japonês no Sudeste Asiático, despertou preocupações estratégicas no governo dos Estados Unidos. Em resposta, foram acelerados os programas de modernização e fortalecimento das forças armadas, com ênfase particular no desenvolvimento do poder aéreo. Nesse novo contexto, tornou-se imperativa a formação em larga escala de pilotos militares, abrangendo desde o treinamento básico até a qualificação avançada em aeronaves multimotoras. Especial atenção foi dedicada à formação de tripulações destinadas a operar bombardeiros e aeronaves de transporte, o que levou o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) a demandar uma frota significativa de aviões de treinamento bimotor. Consultas foram então realizadas junto aos principais fabricantes aeronáuticos, e, nesse processo, as qualidades de voo do Cessna T-50 destacaram-se de forma expressiva. Rapidamente, o modelo passou a ser considerado um candidato promissor para a função de treinador multimotor padrão. Duas aeronaves da versão civil foram cedidas pelo fabricante para avaliação operacional, dando início a um programa que resultaria na identificação de melhorias e adaptações necessárias ao emprego militar recomendações que foram prontamente incorporadas ao projeto original, consolidando sua transição para o uso nas forças armadas. 

Entre as principais modificações introduzidas no Cessna T-50 para atender às exigências militares, destacaram-se a instalação de janelas no teto do cockpit proporcionando melhor visibilidade durante as fases de instrução , a substituição dos motores originais por unidades mais potentes Lycoming R-680-09, com 290 hp, e a incorporação de equipamentos de rádio compatíveis com os padrões militares da época. Essas alterações tinham como objetivo adequar a aeronave às demandas específicas do treinamento de tripulações e às necessidades operacionais emergentes. Nesse contexto, em 1940, o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC)formalizou um contrato inicial para a aquisição de 33 aeronaves, que receberam a designação AT-8. As primeiras unidades começaram a ser entregues em dezembro daquele ano, sendo rapidamente incorporadas às escolas de formação de pilotos, onde demonstraram desempenho consistente e elevada confiabilidade. O êxito operacional dessa versão levou, no final de 1941, à celebração de um novo contrato, desta vez para a produção de 450 aeronaves designadas AT-17A. Essa variante incorporava melhorias adicionais, como janelas suplementares no cockpit, hélices metálicas e a adoção de motores radiais Jacobs R-755-9, com 245 hp. O AT-17A foi concebido para atender à crescente demanda por pilotos multimotores, particularmente aqueles destinados à aviação de bombardeio estratégico, componente essencial da doutrina militar norte-americana no contexto da Segunda Guerra Mundial. Posteriormente, um novo lote de 223 aeronaves foi encomendado, ampliando significativamente a presença do modelo nas unidades de instrução. Em 1942, com a reorganização do corpo aéreo na forma da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF), o T-50 passou também a ser adaptado para missões de transporte leve de pessoal. Um contrato adicional contemplou a produção de 465 aeronaves nessa configuração, que retomavam o uso de hélices de madeira e apresentavam redução de peso estrutural, visando maior eficiência operacional. No âmbito do treinamento, novas variantes continuaram a ser desenvolvidas, como o AT-17C, equipado com um sistema de rádio mais avançado do qual foram entregues 60 unidades, seguido pelas versões AT-17D, AT-17E, AT-17F e AT-17G. Essas evoluções introduziram melhorias graduais no projeto, refletindo o compromisso da fabricante com o aperfeiçoamento contínuo da aeronave. A partir de 1943, as aeronaves destinadas ao transporte leve passaram a ser redesignadas como C-78, marcando sua consolidação nessa função. Nesse mesmo período, a Cessna recebeu um contrato expressivo para a produção de mais de 1.300 unidades, entregues até o final de 1944. Adicionalmente, 17 exemplares civis do T-50 foram incorporados, recebendo a designação UC-78A. A expansão da demanda levou ainda à celebração de um novo contrato para a produção de 1.806 aeronaves do modelo UC-78B, equipadas com hélices de passo variável um avanço tecnológico que ampliava significativamente a flexibilidade e o desempenho operacional. Já no final de 1944, 131 aeronaves originalmente configuradas como AT-17 foram convertidas para o padrão UC-78C, ao mesmo tempo em que outras 196 unidades novas foram produzidas nessa configuração, consolidando o T-50 como um dos principais vetores de treinamento e transporte leve das forças aéreas norte-americanas durante o conflito. 
Ainda em 1942, 67 unidades da versão de transporte leve UC-78 foram transferidas para a Aviação Naval da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy), onde passaram a receber a designação CCI-1. Inicialmente empregados em território norte-americano, os modelos AT-17 e UC-78  popularmente conhecidos como “Bamboo Bomber”, em alusão à sua construção parcialmente em madeira  demonstraram notável versatilidade ao longo do conflito, sendo posteriormente utilizados em diversos teatros de operações da Segunda Guerra Mundial. A robustez estrutural, a confiabilidade mecânica e os baixos custos operacionais consolidaram o Cessna T-50 e suas variantes militares como vetores de grande importância no esforço de guerra aliado. Essas qualidades não apenas garantiram ampla aceitação entre os operadores militares, como também contribuíram para firmar a reputação da Cessna Aircraft Company como uma indústria capaz de responder com eficiência às exigências impostas por um cenário bélico de alta intensidade. No âmbito internacional, já em setembro de 1940, a Força Aérea Real Canadense (RCAF) tornou-se o primeiro cliente estrangeiro do modelo, ao adquirir 180 aeronaves, designadas localmente como Crane Mk.I. Essas unidades apresentavam configurações específicas, incluindo hélices de madeira de passo fixo Hartzell, defletores removíveis nos cilindros e sistemas de aquecimento de óleo, adequados às rigorosas condições climáticas do Canadá. A primeira aeronave foi entregue em 4 de novembro daquele mesmo ano. Em 1941, foi firmado um acordo para a produção sob licença de 640 aeronaves adicionais, com entregas previstas até o final de 1943. Esses aparelhos foram empregados principalmente em missões de transporte leve e no âmbito do Plano de Treinamento Aéreo da Commonwealth Britânica, desempenhando papel relevante na formação de tripulações aliadas. No ano seguinte, outras 180 aeronaves do modelo AT-17A foram cedidas à força aérea canadense em regime de comodato, recebendo a designação Crane Mk.IA. Durante o conflito, centenas de aeronaves dessa família também foram distribuídas por meio do Lend-Lease Act, passando a operar junto às forças da França Livre, da China Nacionalista e do Brasil, entre outros países aliados. No total, entre 1939 e 1944, foram produzidas 5.422 aeronaves, distribuídas em cerca de 20 variantes, evidenciando a expressiva escala de produção alcançada pelo programa. Com o término da guerra, uma parcela significativa dessas aeronaves foi desmobilizada. Para atender ao mercado civil, foram desenvolvidos kits de conversão para o padrão T-50, permitindo que muitas dessas células fossem adquiridas por pequenas companhias aéreas, operadores de fretamento e pilotos particulares, ampliando sua vida útil em tempos de paz. Em1947, restavam poucas aeronaves AT-17 e UC-78 ainda em serviço ativo. Consideradas obsoletas frente aos avanços tecnológicos do pós-guerra, foram oficialmente retiradas de operação em 1949. Ainda assim, um número expressivo de unidades foi transferido para nações alinhadas aos interesses estratégicos dos Estados Unidos, no âmbito de programas de assistência militar, sendo empregadas por países como Peru, Costa Rica, Etiópia, Guatemala, Polônia, França, Haiti, Nicarágua e Iêmen.


Emprego na Força Aérea Brasileira.
No contexto inicial da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a encarar com crescente apreensão a possibilidade de uma projeção militar das potências do Eixo - Alemanha, Itália e Japão em direção ao continente americano. Essa preocupação intensificou-se significativamente após a capitulação da França, em junho de 1940, evento que alterou de forma substancial o equilíbrio estratégico no Atlântico. A eventual utilização de territórios coloniais franceses pela Alemanha nazista, como pontos de apoio avançados  a exemplo de Dacar, no Senegal , acentuava a percepção de vulnerabilidade na região. Nesse cenário, o Brasil assumiu posição de destaque geopolítico, sobretudo em razão de sua proximidade com o continente africano  cerca de 2.800 quilômetros separam o litoral nordestino brasileiro da costa de Dacar. Tal circunstância colocava o país em uma posição estratégica sensível, especialmente diante das possibilidades de expansão e projeção de poder do Eixo no Atlântico Sul. Paralelamente, a expansão japonesa no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul comprometeu importantes centros produtores de látex, elevando o Brasil à condição de principal fornecedor dessa matéria-prima para os Aliados. A borracha natural, derivada do látex, era insumo essencial para a indústria bélica, sendo empregada na fabricação de pneus, vedações e diversos componentes críticos para veículos e equipamentos militares. A relevância estratégica do Brasil foi ainda reforçada por sua configuração geográfica. O litoral nordeste representava o ponto de menor distância entre os continentes americano e africano, consolidando-se como eixo logístico fundamental para o trânsito aéreo e marítimo de tropas, aeronaves, veículos e suprimentos destinados aos teatros de operações na Europa e no Norte da África. Nesse contexto, infraestruturas como os portos de Natal e Recife, bem como a Base Aérea de Parnamirim  conhecida como “Trampolim da Vitória” , desempenharam papel central na sustentação do esforço de guerra aliado. Diante desse quadro, o governo brasileiro, sob a liderança do presidente Getúlio Vargas, intensificou sua aproximação política, econômica e militar com os Estados Unidos, buscando alinhar interesses estratégicos e fortalecer a defesa nacional. Esse processo culminou na adesão ao Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), programa concebido para fornecer apoio material e financeiro às nações aliadas. No caso brasileiro, suas forças armadas enfrentavam limitações significativas em termos de quantidade, disponibilidade operacional e, sobretudo, obsolescência de equipamentos e doutrina, o acordo representou um marco decisivo.  Por meio deste programa , o Brasil passou a dispor de uma linha de crédito inicial da ordem de US$ 100 milhões de dólares  montante que, quando ajustado pela inflação, corresponde a aproximadamente 2 bilhões de dólares em valores atuais. Esses recursos foram destinados à aquisição de material bélico moderno, abrangendo aeronaves, veículos blindados, carros de combate e diversos outros equipamentos militares. Tal aporte financeiro representou um elemento central no processo de modernização das Forças Armadas brasileiras, permitindo não apenas a renovação de meios obsoletos, mas também a ampliação da capacidade operacional do país em um contexto de crescente ameaça no Atlântico Sul.

Nesse contexto, a recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB), instituída oficialmente em 20 de janeiro de 1941, enfrentava desafios substanciais para se afirmar como uma força militar moderna e eficaz. Sua frota, composta em grande parte por aeronaves obsoletas, mostrava-se inadequada às exigências operacionais impostas por um conflito de escala global, limitando severamente a capacidade de resposta do país. A escassez de aeronaves apropriadas para o treinamento básico e avançado comprometia diretamente a formação de pilotos militares em número e nível de qualificação compatíveis com as necessidades estratégicas. Tal deficiência tornava-se ainda mais crítica diante da crescente ameaça representada pelos submarinos alemaes e italianos que passaram a atuar de forma agressiva ao longo do litoral brasileiro, colocando em risco tanto a navegação civil quanto a militar. Além da carência de aeronaves modernas e especializadas para missões de patrulha marítima e guerra antissubmarino, a estrutura da Força Aérea Brasileira (FAB), demandava a implementação de um sistema abrangente de formação de pessoal, inspirado em modelos já consolidados, como aqueles empregados pela Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) e a aviação naval da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy). Isso implicava não apenas a aquisição de novos meios, mas também a incorporação de doutrinas operacionais modernas e a realização de programas intensivos de treinamento técnico e tático. Nesse cenário, o treinamento de pilotos e tripulações em aeronaves multimotoras assumiu papel central, constituindo um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento de capacidades operacionais mais complexas. Contudo, a disponibilidade desses meios era extremamente limitada, restringindo-se a poucas unidades do Focke-Wulf Fw 58 Weihe, cuja utilização era priorizada em missões de patrulha e reconhecimento, reduzindo ainda mais sua disponibilidade para fins de instrução. Diante dessas limitações, a modernização da Força Aérea Brasileira (FAB) tornou-se uma prioridade estratégica, tanto para a defesa do território nacional quanto para sua integração ao esforço de guerra aliado. Ao adotar, em linhas gerais, as doutrinas e métodos de treinamento empregados pelas forças armadas norte-americanas, o Brasil passou a receber, por meio de programas de cooperação, um amplo conjunto de aeronaves destinadas às diversas etapas da formação de pilotos  desde o treinamento primário até o avançado. Nesse processo, a instrução em aeronaves multimotoras foi identificada como elemento essencial para a capacitação de tripulações aptas a operar em missões complexas no Atlântico Sul. Como parte desse esforço de estruturação, foram incorporadas, a partir de meados de 1942, seis aeronaves do modelo Beechcraft AT-7 Navigator, destinadas à formação avançada de pilotos e navegadores, contribuindo de maneira significativa para o fortalecimento das capacidades operacionais nacionais. No entanto ainda a frota de treinadores bimotores se mostrava ainda insuficiente para as demandas de formação. Assim o adido do Ministério da Aeronáutica (MAer) em Washington D.C a negociar a cessão de mais aeronaves deste tipo, com este pleito sendo atendido ao longo dos meses seguintes.
Paralelamente à incorporação de novas aeronaves de treinamento, como o Beechcraft AT-11 Kansan, foi acordada, no âmbito dos programas de cooperação com os Estados Unidos, a cessão de 39 aeronaves bimotores do tipo Cessna T-50, nas versões  UC-78 e UC-78B. Esses vetores mostravam-se particularmente adequados tanto para o treinamento multimotor quanto para missões de ligação e transporte leve, desempenhando papel relevante no processo de estruturação da aviação de transporte, bombardeio e patrulha.  Equipadas com dois motores radiais Jacobs R-755-9, com potência de 245 cavalos cada, essas aeronaves eram popularmente conhecidas como “Bamboo Bomber”, denominação que fazia referência à sua construção parcialmente em madeira  característica que conciliava leveza estrutural e economia de materiais estratégicos. O primeiro lote, composto por 19 aeronaves novas de fábrica, foi entregue em dezembro de 1943 na Base Aérea de San Antonio Field, no estado do Texas. A partir daí, os aviões foram transladados em voo até o Rio de Janeiro por tripulações brasileiras, em uma operação que evidenciou o avanço técnico, organizacional e logístico alcançado  em curto espaço de tempo. Até março de 1944, outras 11 aeronaves foram recebidas e igualmente transferidas para o Brasil, ampliando o número de unidades disponíveis. Do total incorporado nesse período inicial, 20 aeronaves foram prontamente destinadas à Escola de Aeronáutica (EAer), sediada no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, onde passaram a desempenhar papel central na formação de pilotos e tripulações multimotoras. Dessa forma, ao serem incorporadas ao programa de treinamento avançado da Força Aérea Brasileira (FAB), essas aeronaves passaram a desempenhar papel fundamental na formação dos cadetes do terceiro ano. Sua utilização introduzia os futuros aviadores às particularidades do voo multimotor  etapa essencial na preparação de pilotos, navegadores e bombardeadores destinados a operar aeronaves de primeira linha. Entre os vetores que compunham essa linha operacional destacavam-se o Douglas A-20 Havoc, o North American B-25 Mitchell, o Douglas C-47 Skytrain, além dos aviões de patrulha marítima Lockheed PV-1 Ventura, Lockheed A-28 Hudson e Consolidated PBY Catalina. A familiarização com esse tipo de aeronave exigia sólida base técnica e operacional, que passava a ser construída ainda na fase de formação. O currículo de instrução era rigoroso e abrangente, contemplando voos noturnos, navegação por instrumentos, voos em formação e deslocamentos de curta, média e longa distância, totalizando cerca de 130 horas de voo por cadete. Tal estrutura buscava não apenas desenvolver habilidades técnicas, mas também preparar os aviadores para operar em condições adversas e em cenários de elevada complexidade operacional. Esse programa intensivo era fundamental para assegurar que os pilotos brasileiros estivessem aptos a atender às exigências das missões de patrulha marítima, guerra antissubmarino e transporte  atividades de caráter estratégico no contexto do Atlântico Sul, em um  momento em que submarinos alemães representavam uma ameaça concreta à navegação.

As demais aeronaves foram distribuídas estrategicamente, com os  Quartéis-Generais das 2ª e 4ª Zonas Aéreas receberam duas unidades cada, enquanto o da 3ª Zona Aérea foi contemplado com uma aeronave. As células remanescentes foram destinadas à Diretoria de Rotas Aéreas (DRA), onde os Cessna UC-78s, passaram a ser empregados prioritariamente em missões de transporte de pessoal, com uso secundário em rotas de curta distância do Correio Aéreo Nacional (CAN) serviço essencial para a integração logística e administrativa de um país de dimensões continentais. Essa configuração inicial, contudo, foi revista em fevereiro de 1945, quando, ainda no âmbito do Lend-Lease Act, foi autorizada a cessão de um segundo lote composto por 09 aeronaves usadas do modelo UC-78B, provenientes de unidades operacionais norte-americanas. Essas aeronaves foram entregues entre março e agosto daquele ano, ampliando o número de células disponíveis. A maior parte dessas novas incorporações foi concentrada no Campo dos Afonsos, reforçando as atividades de instrução da Escola de Aeronáutica (EAer). Algumas exceções, entretanto, merecem destaque: uma unidade foi destinada à Escola Técnica de Aviação (ETAv), com finalidade didática voltada à formação de pessoal técnico; duas aeronaves foram alocadas ao 1º Grupo de Transporte, apoiando a comissão encarregada da implantação da Fábrica Nacional de Motores (FNM); e outras permaneceram temporariamente sob responsabilidade da Seção de Aviões de Comando (SAC), com algumas colocadas à disposição da Diretoria de Aviação Civil (DAC) para missões administrativas. Com um total de 39 aeronaves em operação, a Força Aérea Brasileira (FAB) consolidou-se como o terceiro maior operador militar do Cessna T-50/UC-78 em âmbito global, atrás apenas dos Estados Unidos e do Canadá  um indicativo da relevância atribuída a esse modelo no processo de modernização da aviação militar brasileira. Não obstante, a trajetória operacional dessas aeronaves no Brasil revelou-se relativamente breve. Com o término da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1945, a Diretoria de Material da Aeronáutica (DIRMA)  determinou a redistribuição das células remanescentes da Escola de Aeronáutica (EAer) para diversas bases aéreas, incluindo Galeão, Natal, Salvador, Porto Alegre, Santa Cruz, Santos e destacamentos em Florianópolis. Nessa nova fase, os aparelhos então redesignados como T-17  passaram a desempenhar funções orgânicas, voltadas ao transporte leve, atividades administrativas e, em menor escala, ao apoio às rotas do Correio Aéreo Nacional. Entretanto, apesar de sua relevância operacional, a frota enfrentou um processo acelerado de desgaste. A construção parcialmente em madeira, característica marcante do projeto, mostrou-se particularmente vulnerável às condições ambientais do território brasileiro. A combinação de elevada umidade  especialmente nas regiões tropicais  com o uso extensivo de madeira nas asas e na fuselagem favoreceu o surgimento de problemas estruturais, como o apodrecimento do material. Assim, mesmo sendo uma aeronave robusta em termos de concepção, a exposição prolongada a condições climáticas adversas levou à condenação de diversas células durante inspeções e revisões realizadas em nível de parque, quando eram constatados danos estruturais irreversíveis. 
Antes de sua desativação definitiva, as células consideradas irrecuperáveis foram submetidas a processos sistemáticos de canibalização, prática comum em cenários de restrição logística. Por meio desse procedimento, componentes mecânicos, elétricos e hidráulicos eram retirados das aeronaves condenadas com o objetivo de sustentar a operacionalidade da frota remanescente. Essa estratégia permitiu prolongar a vida útil das aeronaves ainda em condições de voo, sendo acompanhada pela adoção de inspeções estruturais mais rigorosas, voltadas à manutenção da segurança operacional. No âmbito de um processo mais amplo de reorganização da Força Aérea Brasileira (FAB), foi estabelecida, em outubro de 1956, por meio de diretriz da Diretoria de Material da Aeronáutica (DIRMA), a redesignação das aeronaves remanescentes como T-17, passando a ostentar matrículas compreendidas entre FAB 1800 e FAB 1818. Àquela altura, apenas 18 aeronaves permaneciam em condições de voo. Entretanto, avaliações técnicas subsequentes, conduzidas nos parques de manutenção, identificaram novos comprometimentos estruturais, reduzindo ainda mais a disponibilidade operacional. Já no segundo semestre de 1957, apenas 11 aeronaves continuavam aptas ao voo, número considerado insuficiente para justificar a permanência do modelo em serviço ativo. Diante desse cenário, foram realizados estudos visando definir o destino da frota. Como resultado, em 17 de novembro de 1957, foi determinada a retirada definitiva das aeronaves T-17 do serviço ativo. As células remanescentes, bem como os estoques de peças de reposição, foram então transferidos para o Núcleo do Parque de Aeronáutica de Porto Alegre (NuPqAerPA), onde seriam concentrados para fins logísticos e administrativos. Em uma etapa posterior, as 13 aeronaves em melhores condições estruturais foram submetidas a revisões e preparadas para transferência ao Departamento de Aviação Civil (DAC), que procedeu à sua redistribuição entre diversos aeroclubes do país. Essa iniciativa permitiu prolongar a utilização dessas aeronaves no meio civil, sobretudo em atividades de instrução e aviação geral. Como exceção, uma única aeronave o Cessna T-17  de matrícula FAB 1805  permaneceu em uso na Escola Técnica de Aviação (ETAv) até 1960, sendo empregada exclusivamente para instrução em solo.  Apesar da relevância histórica do modelo, nenhuma unidade foi preservada à época como parte do patrimônio institucional da Força Aérea Brasileira (FAB). Somente décadas mais tarde, em 1989, uma iniciativa de caráter histórico possibilitou o retorno de um exemplar ao Brasil. Uma célula do modelo UC-78 foi adquirida junto ao Mid-Atlantic Air Museum, por meio de uma permuta que envolveu a cessão de uma aeronave North American T-28 Trojan. Após um criterioso processo de restauração, o aparelho recebeu a matrícula FAB 2022 e foi incorporado ao acervo do Museu Aeroespacial (MUSAL) no Rio de Janeiro, onde permanece em exposição, constituindo um importante testemunho do papel desempenhado pelos chamados “Bamboo Bombers” na história da aviação militar brasileira.

Em Escala.
Para representarmos o Cessna UC-78 Bobcat " FAB 2720 ", empregamos o kit da Czech Model na escala 1/48 , modelo este que vem recheado com peças em resina para detalhamento e sets de photo-etched da Squadron , proporcionando um nível de detalhamento interno muito bom. Como não existe um set de decais específico para a versão brasileira, fizemos uso de peças oriundas de diversos sets da FCM Decals. 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o primeiro padrão de pintura empregado nas aeronaves recebidas entre 1943 e 1944, sendo idêntica ao utilizado pela Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) durante a Segunda Guerra Mundial. As últimas unidades em operação na  Força Aérea Brasileira (FAB) a partir de 1947 receberiam a pintura em metal natural, mantendo este novo padrão até sua desativação em fins do ano de 1957.
Bibliografia :
- Cessna T-50 Bobcat – Brid do Ar Clovis de Athayde Boher – Revista Força Aérea Nº 94
- História da Força Aérea Brasileira , Prof Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Aviação Militar Brasileira 1916 / 2015 – Jackson Flores Jr